segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

FAO: pessoas saudáveis dependem de sistemas de alimentação saudáveis
No Dia Mundial da Alimentação, comemorado neste 16 de outubro, a agência destaca a importância de alimentos saudáveis para que a população tenha saúde; 842 milhões de pessoas no mundo estão desnutridas.

Foto: FAO

O Dia Mundial da Alimentação, comemorado nesta quarta-feira, 16 de outubro, tem a sustentabilidade como tema. A data também celebra o aniversário da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, fundada em 1945.

Para a FAO, pessoas saudáveis dependem de sistemas de alimentação saudáveis. Em mensagem sobre o dia, o diretor da agência, José Graziano da Silva, lembrou que o total de pessoas que passam fome no mundo diminuiu, mas 842 milhões ainda sofrem de fome crônica.

“Podemos ir mais longe, erradicando a fome no Brasil e no mundo. Porque quando nós falamos de fome, o único número que podemos aceitar é zero. A agricultura familiar tem um papel essencial nessa luta. O setor é um dos maiores produtores e fornecedores de alimentos no Brasil e na grande maioria dos países em desenvolvimento. Ainda assim, permanecem em muitos casos uma grande brecha entre a produção e o potencial que pode ser explorado.”

Acesso

A FAO alerta para a degradação da natureza, causada por modelos insustentáveis de desenvolvimento, que ameaçam ecossistemas e biodiversidade.

Segundo a agência, a produção e o processamento dos alimentos são feitos pelo ambiente, pessoas, instituições e agricultura.

Por isso, a agência da ONU destaca que todo aspecto do sistema alimentar tem um efeito na disponibilidade e no acesso a produtos diversos e nutritivos e em consequência, na habilidade dos consumidores em poder seguir uma dieta saudável.

A FAO destaca que o Dia Mundial da Alimentação é uma oportunidade de explorar essas questões e serão realizados vários eventos na sede da agência em Roma, na Itália, incluindo um debate de alto nível sobre o desperdício de comida.

Matéria de Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York


Fonte:  EcoDebate

domingo, 22 de dezembro de 2013

Denúncia: mais vazamentos de urânio das Indústrias Nucleares do Brasil em Caetité, na Bahia
Por Zoraide Vilasboas
ASSOCIAÇÃO MOVIMENTO PAULO JACKSON - Ética, Justiça, Cidadania.
Mina de urânio em Caetité

Mais um ano amargo para o Programa Nuclear Brasileiro. O balanço 2013 é mesmo degradante, encerrando com vazamentos de licor radioativo, de contaminantes químicos, supressão de vegetação e baixa produção em sua unidade industrial de Caetité, na Bahia, onde uma mineração de urânio dá inicio ao ciclo de produção de energia nuclear. Crimes ambientais e trabalhistas, constatados e denunciados, ao longo do ano, aos órgãos responsáveis pela fiscalização continuam impunes.

O Sindicato dos Mineradores de Brumado e Microrregião (Sindmine) revelou, hoje, que a Indústrias Nucleares do Brasil (INB) conseguiu esconder um acidente no TQ 1402, maior tanque de estocagem do sistema de produção de concentrado de urânio, que há mais de um mês está encharcando o solo com licor radioativo. E ontem foi detectado outro vazamento, num reservatório de rejeitos de altíssima concentração de urânio na área 170, onde se realizam atividades de precipitação, filtração, secagem e entamboramento desse minério. É a mesma área que foi parcialmente interditada, em julho de 2011, pelo Ministério Público do Trabalho e MTE, devido à irregularidades verificadas na INB.
Vazamento de urânio em pó, na área de entamboramento. Foto IBAMA

NEGLIGENCIA DA FISCALIZAÇÃO

O Sindicato ainda não tem informação sobre o volume de líquido percolado, nem de quanto tempo o vazamento vem ocorrendo. Mas, o secretário do Sindmine Lucas Mendonça destaca a gravidade da situação, sobretudo porque o único fiscal da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), proprietária e fiscal da INB, residente na Bahia, entrou de férias e não foi substituído. A preocupação é grande porque o ano administrativo da CNEN se encerrou hoje, dificultando a vinda de fiscais de outras regiões a Caetité. Mas, com certeza, os trabalhadores da INB, o povo de Caetité, o povo do sudoeste, não merecem um presente de Natal como este!

Se o IBAMA tivesse agido, desde que descobriu, há quase 10 meses, que a INB manteve escondido mais um vazamento grave no tanque 6307, talvez os acidentes de agora pudessem ter sido evitados.  O vazamento, ocorrido em 8 de março deste ano, liberou cerca de 2 mil metros cúbicos de líquido para o meio ambiente e os fiscais  recomendaram a aplicação de sanções porque a empresa opera descumprindo condicionantes da Licença de Operação.

Também em março passado, eles descobriram uma grande devastação de mata, que vinha ocorrendo há oito anos, e propuseram a autuação da INB por suprimir vegetação, sem a respectiva Autorização de Supressão de Vegetação, como manda a lei.  No mesmo relatório da vistoria sobre a gestão ambiental da mineração, o órgão menciona outro vazamento de fluido, com elevada concentração de sódio, ocorrido em 21 de fevereiro passado, na bacia 1403B, devido a incompetência técnico-operacional no descarte de carbonato de sódio empedrado, que danificou a manta de contenção dos efluentes da planta.
Resíduos contaminados cobertos com manta de PEAD ao fundo da vala aberta recentemente. Foto IBAMA

CONTAMINANTES AMEAÇAM

Entre as criticas dos fiscais do IBAMA, está o registro da inexistência de manuais de operação, em especial, procedimentos para situações de emergências e procedimentos gerais de segurança, saúde e meio ambiente.  Anotaram que a área de estocagem de resíduos contaminados permanece inadequada, que medidas corretivas, recomendadas há anos, não foram adotadas e que os tambores com esse material continuam expostos às intempéries. Materiais perigosos, resíduos inservíveis continuam sem adequado tratamento, dispostos em valas. Plásticos, madeira, enfardados, lâmpadas fluorescentes ficam ao ar livre.

Desde agosto do ano passado, diversos acidentes chegaram ao conhecimento público. Poucos foram comunicados aos órgãos competentes. Em 19 de agosto, houve um transbordamento de óleo BPF na área das caldeiras. Em 22 do mesmo mês, o fato se repetiu. O terceiro transbordamento de óleo combustível BPF ocorreu em 25 de agosto. Em 26 de setembro, cerca de 300 litros de óleo BPF escoaram para a rede de drenagem pluvial, transbordando para o meio ambiente. Já em 18 de outubro, uma falha na operação da INB espalhou cerca de 250 kg de urânio em pó, que estavam sendo embalados em um tambor, dos quais a empresa só conseguiu recuperar 118 kg. Em 2 de novembro, vazou ácido sulfúrico a 98% de um tanque e transbordou para o meio ambiente, chegando ao Córrego do Engenho. Este acidente paralisou a produção.

Vazamentos de ácido sulfúrico são corriqueiros na INB. E chama a atenção, o fato dos gestores da empresa orientarem os trabalhadores a não registrar problemas em seus livros de relatório. Há um poço de monitoramento, por exemplo, o PMA-18, que desde 2010 vem detectando vazamento de solventes por baixo da planta da usina, que jamais foi controlado, apesar de todo o piso da área ter sido concretado. Este fato ilustra bem a incompetência gerencial da unidade de Caetité, que há anos não sabe de onde parte o vazamento, nem tem ideia do volume já infiltrado no solo.

PREJUÍZOS DO NUCLEAR

A condicionante do licenciamento determina que qualquer acidente causador de dano ambiental deve ser comunicado de imediato ao IBAMA, à CNEN e ao INEMA. Mas os fiscais afirmam que “a INB continua não informando o Ibama de todos os eventos ocorridos na instalação”. E sugeriram a aplicação do Decreto nº 6.514/2008, que prevê multa de R$ 500,00 a R$ 10.000.000,00 pelo descumprimento das condicionantes do licenciamento.

A violação de leis ambientais, de leis trabalhistas e o descumprimento de condicionantes do licenciamento é pratica rotineira na unidade baiana da INB. Isto já foi denunciado várias vezes por movimentos sociais e fiscais do IBAMA. No campo do meio ambiente do trabalho, o ano finda também com um saldo bastante negativo. Práticas antisindicais tentam impor uma cortina de silêncio sobre os problemas que acontecem na empresa e resultam em tentativas de demissão de sindicalistas e afastamento de trabalhadores, por adoecimento psicológico, vitimados por um assédio moral sem precedentes.

A média anual de acidentes em Caetité evidencia a incompetência gerencial e a insegurança técnico-operacional que caracterizam o Programa Nuclear Brasileiro. Até quando o Estado brasileiro continuará fazendo vistas grossas à devastação ambiental e aos prejuízos de trabalhadores e das populações afetadas por este programa, no Sertão da Bahia?

Crédito das fotos: Zoraide Vilasboas e blogue Racismo Ambiental


Fonte: EcoDebate

sábado, 21 de dezembro de 2013

Desigualdade no saneamento básico no Brasil impressiona relatora especial da ONU
Catarina de Albuquerque em visita ao Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Foto: ONU/Paulo Rodrigues

Após dez dias de visita ao Brasil, a relatora especial das Nações Unidas sobre Água e Saneamento, Catarina de Albuquerque, apresentou hoje suas conclusões preliminares e as recomendações iniciais ao governo brasileiro sobre as condições sanitárias do país. A relatora disse que ficou chocada com as desigualdades regionais no acesso ao saneamento básico, sendo a Região Norte a mais afetada.

“Vi muitos contrastes. Há regiões com nível de primeiro mundo, como os estados de São Paulo e do Rio, com cidades com taxa de tratamento de esgoto superior a 93%, e vi outras regiões, como Belém, em que essa taxa é 7,7%, e Macapá, 5,5%. São diferenças assustadoras. Também vi diferenças entre ricos e pobres. O que uma pessoa rica pela água e pelo esgoto não é significativo, mas, para uma pessoa pobre, essa conta é muito alta”, disse a relatora.

Catarina se reuniu com representantes do governo e de organizações internacionais, da sociedade civil e com membros de comunidades em Brasília, no Rio de Janeiro, em São Paulo, Fortaleza e Belém. Em suas visitas, a relatora deu atenção especial aos moradores de favelas, de assentamentos informais e de áreas rurais, incluindo aquelas afetadas pela seca.

Segundo a especialista, o Brasil está entre os dez países onde mais faltam banheiros – 7 milhões de brasileiros estão nessa situação. Cinquenta e dois por cento da população não têm coleta de esgoto e somente 38% são tratados. “A situação de falta de acesso a esgoto é particularmente grave na Região Norte, onde menos de 10% da população têm coleta de esgoto”, disse Catarina.

Ao visitar comunidades carentes no Rio de Janeiro e em São Paulo, a perita da ONU observou que as populações pobres se sentem invisíveis e esquecidas pelo Poder Público. “Fiquei chocada com a miséria e com a falta de acesso ao saneamento de pessoas que vivem em favelas e em assentamentos informais. Isto é inaceitável de uma perspectiva de direitos humanos. Ninguém pode excluir determinados segmentos da população porque não têm a titularidade da terra”, destacou.

Catarina visitou o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, e ouviu reclamações dos moradores sobre a falta de continuidade nos serviços de abastecimento e da qualidade da água. “O Complexo do Alemão é uma preocupação enquanto houver pessoas que não têm acesso a esgoto e água.”

Segundo ela, os problemas criados pela falta de esgoto acentuam-se durante a temporada de chuvas, como a que ela presenciou na Baixada Fluminense, no Rio, na semana passada. “Pude observar a inundação de ruas e canais de dragagem e vi o esgoto inundando as casas das pessoas”, acrescentou.

Para a especialista, o baixo investimento em saneamento resulta em alto custo para a saúde pública, com 400 mil internados por diarreia, a um custo de R$ 140 milhões para o Sistema Único de Saúde (SUS), principalmente entre as crianças até 5 anos. “As pessoas não associam a diarreia à falta de esgoto e de água potável. Em termos econômicos, investir na água e no esgoto é um ótimo negócio. Para cada R$ 1 investido, os custos evitados [com gastos em saúde] são da ordem de R$ 4”, estimou.

Outro ponto apontado pela relatora da ONU é a questão do alto custo das tarifas de água e esgoto para a população de baixa renda. “É um sufoco para essas pessoas pagar as tarifas. Essa conta não deveria ultrapassar 5% do orçamento familiar. As companhias estaduais decidem ter tarifas muito altas e dividem os lucros entre os acionistas. Deve haver mais pressão dos municípios e dos estados sobre as companhias para que elas reinvistam os lucros no setor.”

Catarina reconhece os avanços no setor e comemora a recente aprovação do Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab). “O Plansab é um avanço enorme, mostra que o país tem visão para o setor nos próximos 20 anos, com recursos financeiros muito significativos.” O plano, com investimentos estimados de R$ 508 bilhões entre 2013 e 2033, prevê metas nacionais e regionalizadas de curto, médio e longo prazos, para a universalização dos serviços de saneamento básico.

O relatório final será apresentado em setembro na próxima sessão do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.

Em nota divulgada à noite, o Ministério das Cidades informou que vai avaliar detalhadamente as conclusões apresentadas pela relatora da ONU. De acordo com a nota, Catarina de Albuquerque destaca, em suas conclusões preliminares, os avanços ocorridos no saneamento básico nos últimos anos e aponta problemas que o país ainda precisa enfrentar.

Segundo a pasta, “vultosos recursos” têm sido disponibilizados para obras de saneamento, cuja execução cabe aos municípios, estados e prestadoras desse tipo de serviço. Somente neste o ano, o governo federal selecionou e está contratando empreendimentos que somam mais de R$ 30 bilhões, diz a nota.

Ao lembrar os elogios de Catarina ao lançamento do Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), destaca a nota, a relatora da ONU reconhece o esforço do país em solucionar os problemas no setor.

Reportagem de Ana Cristina Campos, da Agência Brasil


Fonte:  EcoDebate
Estudo analisa abastecimento de água potável no Brasil
Para o autor do estudo, as práticas de regulação são importantes ferramentas na busca por um atendimento integral e de qualidade, mas não basta apenas ter acesso à rede, é preciso ter água disponível, dentro de padrões de potabilidade, e a preços justos.

Analisar comparativamente os dados disponíveis sobre a cobertura de abastecimento de água potável no Brasil, buscando identificar o tamanho de seu déficit, foi um dos objetivos da pesquisa A regulação e a universalização dos serviços de abastecimento de água potável no Brasil, desenvolvida pelo farmacêutico José Bento da Rocha. O estudo foi realizado no âmbito do mestrado profissional em Gestão e Regulação de Serviços Públicos de Saneamento Básico, promovido pela Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/FIOCRUZ) em parceria com a Fiocruz Brasília. Sob a orientação da pesquisadora do Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental da Escola Clarice Melamed, a pesquisa aponta que, apesar dos investimentos realizados nas últimas décadas, o déficit nacional para o serviço de abastecimento de água potável ainda é da ordem de 10%.

Dentre os muitos serviços que o cidadão brasileiro espera que o Estado coloque à sua disposição, e aos quais tem direitos legais, um merece destaque especial: o abastecimento de água potável. A Lei 11.445/2007, que estabelece as diretrizes nacionais para o saneamento básico, traz um novo paradigma quando aponta para a universalização como um de seus princípios. Neste contexto, a regulação ganhou peso como possível instrumento de incentivo e coerção ao cumprimento das regras definidas em várias frentes legais e regulamentares.

Para compreender todo esse processo o coordenador de Monitoramento de Projetos da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (ADASA DF), o farmacêutico José Bento da Rocha, realizou uma revisão de literatura, visando contribuir para o esclarecimento dos desafios relacionados à universalização e os caminhos que devem ser percorridos para alcançá-lo. A pesquisa visou ainda a análise de seis agências reguladoras brasileiras que atuam na regulação de serviços de abastecimento de água potável. Além de analisar comparativamente os dados disponíveis sobre a cobertura de abastecimento de água potável no Brasil, buscando identificar o tamanho do seu déficit, a pesquisa procurou também verificar as contribuições das agências reguladoras para a extinção deste déficit; analisar os possíveis impactos da regulação em direção à universalização dos serviços públicos de abastecimento de água potável; e analisar os instrumentos fomentadores da universalização quanto à sua eficiência e efetividade.

Impactos da regulação, déficit e agências reguladoras.

De acordo com Rocha, embora existam possíveis impactos da regulação para a melhoria do acesso aos serviços de abastecimento de água potável no país, eles ainda são, certamente, menores do que o esperado. No contexto do déficit, o coordenador apontou que ele é da ordem de 10% no âmbito do abastecimento de água potável no Brasil, considerando apenas a presença ou ausência da disponibilidade do serviço para o domicílio (rural ou urbano). “No entanto, podemos verificar que se levarmos em consideração a adequabilidade e a continuidade do deste serviço o déficit sobe para aproximadamente 40%, um índice extremamente alto”, alertou.

Sobre a análise das agências reguladoras o coordenador citou que alguns contratos de concessão trazem claramente a preocupação com a universalização, outros apenas indiretamente, e alguns não a citam ou aceitam metas de cobertura que ficam longe dos objetivos procurados. “Apesar da presença de contratos de concessão balizados em metas de expansão rumo à universalização dos serviços de abastecimento de água potável, em algumas localidades as metas acertadas não estão sendo alcançadas e a regulação muitas vezes tem sido impotente, sugerindo a ideia de que pode haver captura do regulador nestes casos. Um exemplo bem claro de descumprimento das metas acordadas é Manaus, onde a cobertura atual – de acordo com dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento 2011 – é inferior à prevista para 2006”, explicou ele.

Vontade política, dificuldades financeiras e ocupação irregular contribuem para déficit de cobertura de abastecimento.

Segundo o coordenador da ADASA, em relação ao déficit de cobertura para o abastecimento de água potável, a pesquisa pôde concluir que há uma série de complicadores para a sua extinção. Problemas que vão desde a vontade política dos governantes, passando pelas dificuldades financeiras, a áreas de ocupação irregular que possuem ausência de infraestrutura e alegada baixa capacidade de pagamento dos moradores, até deficiências relacionadas aos dados sobre cobertura. “Em uma análise de contexto geral dos contratos estudados nessa pesquisa, pode-se dizer que ainda não há uma diretriz específica adotada pelas agências reguladoras no que diz respeito à responsabilização, em contrato, dos prestadores na busca pela universalização dos serviços”, denunciou

Por fim, Rocha comentou que analisando a breve história do modelo regulatório atual no Brasil e as contribuições que a regulação já ofereceu, é importante destacar que ainda há muito o que fazer para avançar. Para ele, as práticas de regulação são importantes ferramentas na busca por um atendimento integral e de qualidade, mas não basta apenas ter acesso à rede, é preciso ter água disponível, dentro de padrões de potabilidade, e a preços justos. “É urgente a necessidade de um marco regulatório consistente no qual a questão do acesso aos serviços seja preponderante, trazendo assim, a expansão dos benefícios que a sociedade espera e pelos quais remunera os reguladores”, concluiu o coordenador.

Matéria de Tatiane Vargas, da Agência FIOCRUZ de Notícias

Fonte: EcoDebate

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O Brasil é grande exportador de ‘água virtual’
As commodities agrícolas estão entre os principais itens de exportação do Brasil. A produção é tão elevada que se estima, atualmente, que a agricultura responde por mais de um quarto do PIB nacional. Porém, há um novo elemento, de abundante quantidade no País, que vem sendo muito bem cotado no mercado internacional e a China, um dos maiores clientes de nossas riquezas, já desponta como um dos grandes mercados para este antigo, porém valioso produto. A água!

O Brasil é hoje um dos maiores exportadores globais de “água virtual”, conceito criado para explicar a quantidade de água empregada para produzir um produto em um determinado local, porém destinado para outra localidade, criando assim um fluxo virtual entre os países.
Quando um produto é comercializado entre países, a água usada também foi exportada

“A China adotou uma política de aumentar as importações de culturas de elevado uso de água, como a soja, o que reduz a demanda de água na Ásia, mas aumenta a dependência de quem produz mercadorias que necessitam de irrigação no Mato Grosso”, explica Maria Victoria Ramos Ballester, professora do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, em Piracicaba.

Para países situados em regiões que sofrem com escassez hídrica, o comercio de água virtual é atraente e benéfico. “Por meio da importação de mercadorias que consomem muita água durante seu processo produtivo, nações, estados e municípios podem aliviar as pressões que sofrem sobre suas próprias fontes”, esclarece a professora. “Quando um produto, seja ele qual for, é comercializado entre países, estados ou municípios, entende-se que a água utilizada em seu processo fabril também foi exportada”, completa.

Ponto chave

Apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) no âmbito das pesquisas de colaboração internacional promovidas pelo Belmont Forum, conselho de agências de fomento à pesquisa de vários países do mundo, a equipe de trabalho atuará em uma das fronteiras agrícolas de mais rápida expansão e intensificação do mundo, a bacia hidrográfica do Alto Xingu, localizada ao sul da Amazônia brasileira.

“A região do Alto Xingu é globalmente conectada por meio de exportações agrícolas e, portanto, é um ponto chave na rede mundial de comércio de água virtual”, afirma Vicky Ballester, pesquisadora do projeto e membro do Programa Fapesp de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais.

Ao longo das últimas quatro décadas, o Alto Xingu sofreu um processo de desmatamento em larga escala, impulsionado principalmente pela intensificação da criação de gado e lavouras. Nos últimos vinte anos, a crescente demanda mundial por carne tem alimentado a expansão das áreas de cultivo na região, especialmente a soja para a alimentação animal. “As exportações de soja aumentaram e deslocaram-se da Europa, que era o principal mercado de destino em 2000, para a China, que hoje se tornou o maior importador de soja de Mato Grosso”.

As tendências de crescimento populacional na Ásia indicam que esse comércio de água virtual se tornará ainda mais estratégico para a segurança hídrica dos países da região, principalmente a China. Os pesquisadores do projeto do Cena propõem avaliar o consumo de água da cultura de soja e sua eficiência, já que os recursos hídricos subterrâneos no Alto Xingu estão entre os menos explorados do planeta, o que sugere que a futura intensificação da agricultura pode recorrer a essa região para explorar ainda mais seus recursos para irrigação.

“Enquanto a água virtual, relacionada com as exportações de soja do Mato Grosso, está ajudando a subsidiar a segurança alimentar e hídrica na China, existem inúmeras demandas conflitantes de água dentro da bacia do Alto Xingu”, conclui a professora.

Foto: Wikimedia



 Fonte: EcoDebate
Publicação reúne avaliações sobre o risco de extinção de espécies de plantas em todo o país
Orquídea: uma das espécies sob o risco de extinção

Pesquisadores ligados ao Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora), entidade vinculada à Diretoria de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, elaboraram o “Livro Vermelho da Flora do Brasil”. A publicação foi lançada nesta terça-feira (03/12), na Escola Nacional de Botânica Tropical, Solar da Imperatriz, no Rio de Janeiro.

O livro, organizado por Gustavo Matinelli e Miguel Ávila Moraes, revela que, do ponto de vista espacial, a maioria das espécies ameaçadas encontra-se nos nas regiões Sudeste e Sul. De um total de 4.617 espécies avaliadas, 2.118 (45,9%) foram classificadas como ameaçadas e enquadradas nas categorias Vulnerável (VU), Em Perigo (EN) e Criticamente em Perigo (CR). As demais entraram nas categorias Menos Preocupante (LC), Deficiente de Dados (DD) e Quase Ameaçada (NT).

AÇÕES DE CONSERVAÇÃO

Para os cientistas, um dos grandes desafios que os países enfrentam, atualmente, é conhecer sua biodiversidade e avaliar o risco de extinção das espécies nativas de seus territórios, para planejar as ações de conservação. O Brasil concentra de 11% a 14% da diversidade de plantas do mundo, com quase 44 mil espécies catalogadas e milhares ainda desconhecidas pela ciência. No País estão localizadas duas das 34 áreas de grande diversidade de espécies com alto risco de extinção (hotspots), que são a Mata Atlântica e Cerrado.

Entre os Estados, Minas Gerais tem a maior quantidade de espécies nas três categorias de risco de extinção (VU, EN e CR). Na sequência, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Bahia encabeçam a lista da flora em risco de extinção. Mata Atlântica e Cerrado são os dois biomas em que se verificou o maior número de espécies ameaçadas, seguidos da Caatinga e dos Pampas.

A Amazônia ocupa o quinto lugar do ranking, o que pode ser explicado pela vasta rede de áreas protegidas (38% de seu território), pelas várias regiões de difícil acesso e pelas lacunas de informação sobre suas espécies. De acordo com os pesquisadores, o livro permitirá a atualização da “Lista Oficial de Espécies da Flora Brasileira Ameaçadas de Extinção”.

“O conjunto da obra oferece ao leitor todo o conteúdo necessário para consultar o risco de extinção de espécies da flora avaliadas”, esclarece Gustavo Martinelli, coordenador do CNCFlora. “Nesse contexto, acreditamos que o livro terá grande utilidade para municiar tomadores de decisão com informações científicas que possam nortear o estabelecimento de prioridades de ação para conservação de plantas, ou mesmo para direcionar pesquisas científicas que possam preencher lacunas de conhecimento sobre determinados grupos taxonômicos”.

DEGRADAÇÃO

O trabalho do CNCFlora foi elaborado a partir de ferramentas tecnológicas, obtidas em um portal online integrado, que viabilizaram a criação de um acervo único sobre as espécies em risco de extinção, constatando-se que a perda de hábitat e a degradação são as principais ameaças à flora nacional. Para o secretário de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, Roberto Cavalcanti, a publicação apresenta avaliações de risco que servirão de subsídio essencial à elaboração da lista vermelha das espécies ameaçadas de extinção. “É, por isso mesmo, um trabalho importantíssimo de pesquisadores brasileiros e internacionais sobre a flora do País”, acrescenta.

Em relação às espécies avaliadas no livro, o grupo das samambaias, avencas e xaxins (Pteridófitas), por exemplo, é o mais ameaçado, enquanto o de musgos, entre outros (Briófitas) é, proporcionalmente, o menos ameaçado. O estudo apontou, ainda, que a família das bromélias (Bromeliaceae) apresenta o maior número de espécies consideradas criticamente em perigo, seguida das famílias das orquídeas (Orchidaceae) e das que fazem parte, por exemplo, girassóis e margaridas (Asteraceae).

PREOCUPAÇÃO

O Centro Nacional de Conservação da Flora tem a missão de coordenar os esforços nacionais de conservação de plantas. A primeira fase desse trabalho avaliou, cientificamente, 4.617 espécies da flora brasileira já incluídas em listas oficiais de espécies ameaçadas. A meta é, até 2020, concluir a avaliação de risco de extinção de todas as espécies conhecidas de plantas brasileiras.

O sistema do CNCFlora contabilizou 5.642 ameaças incidentes sobre a flora brasileira. Dentre elas, 3.400 (60,2%) afetam espécies consideradas em risco de extinção. A perda de hábitat e a degradação são responsáveis por 87,35% (2.970) dessas ameaças. A agricultura é a causa primária de perda de hábitat e degradação (36,1%). Infraestrutura e planos de desenvolvimento (23,5%), bem como o uso de recursos naturais (22,3%), também contribuem, de forma significativa, com esse processo. O fogo causado por pessoas (11%) é, igualmente, uma fonte de grande preocupação dos pesquisadores.
Na web:


Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Texto de Luciene de Assis, do MMA

Fonte: EcoDebate

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Puxado por China e Índia, maior consumo de carne põe meio ambiente em risco

O consumo de carne no mundo vem crescendo puxado por uma alta na ingestão da comida pela China e pela Índia, aponta estudo [Eating up the world’s food web and the human trophic level] publicado na última edição do periódico científico Proceedings of the National Academy of Sciences. Matéria no UOL Notícias, com informações complementares do EcoDebate.

O maior consumo de carne por esses dois países põe em risco ecossistemas do planeta, alerta o estudo de âmbito global e que detalha hábitos alimentares de 176 países de forma inédita, calculando o nível trófico humano (métrica que é usada na ecologia para localizar espécies na cadeia alimentar).

Esse cálculo é importante ao revelar onde a humanidade se encaixa no ecossistema, ajudando cientistas a entenderem exatamente o impacto humano no consumo de energia e recursos naturais. E a notícia é ruim, estamos cada vez mais carnívoros.

Assim, de acordo com a métrica, plantas e algas localizam-se no nível trófico 1; coelhos, que se alimentam de plantas, ocupam o nível 2; raposas, predadores de herbívoros como os coelhos, ficam no nível 3; bacalhau, peixe que come outros peixes, situa-se no nível 4; ursos polares e baleias orcas, que quase não têm predadores e alimentam-se de outros animais, ficam com níveis até 5.5.
Dentro dessa escala, humanos estariam no nível 2.21.

Contudo, a humanidade vem galgando degraus na métrica: já subiu 3% desde 1961, o que preocupa o cientista-líder do estudo Sylvain Bonhommeau, ligado ao Instituto da França de Pesquisas para Exploração do Mar. “Se subirmos mais no nível trófico, impactaremos nossos ecossistemas”, diz ele na divulgação da pesquisa.

Outros especialistas ecoam o alerta. “Pode parecer uma diferença pequena [os 3% de crescimento], mas quando se pensa em como isso é calculado, é muito”, afirmou à revista Nature o cientista Thomas Kastner, da Universidade Alpen-Adria, na Áustria. “Uma mudança de 0.1 ponto significa que estamos consumindo consideravelmente mais carnes e comidas à base de animais.”

De acordo com os pesquisadores, o nível trófico de um organismo é calculado com base nos alimentos presentes em sua dieta e a proporção com a qual eles são consumidos. No caso dos seres humanos, a pesquisa avaliou o consumo de 102 tipos de comida nos já mencionados 176 países.

Biological Sciences – Ecology – Social Sciences – Environmental Sciences
Sylvain Bonhommeau, Laurent Dubroca, Olivier Le Pape, Julien Barde, David M. Kaplan, Emmanuel Chassot, and Anne-Elise Nieblas

Eating up the world’s food web and the human trophic level
PNAS 2013 ; published ahead of print December 2, 2013, doi:10.1073/pnas.1305827110
http://www.pnas.org/content/early/2013/11/27/1305827110.full.pdf+html?sid=eebb5393-d3df-46d4-a179-64b570a77c90

Significance

Here we combine ecological theory, demography, and socio-economics to calculate the human trophic level (HTL) and position humans in the context of the food web. Trophic levels are a measure of diet composition and are a basic metric in ecology, but have never been calculated for humans. In the global food web, we discover that humans are similar to anchovy or pigs and cannot be considered apex predators. In addition, we show that, although countries have diverse diets, there are just five major groups of countries with similar dietary trends. We find significant links between HTL and important World Bank development indicators, giving insights into the relationship between socio-economic, environmental, and health conditions and changing dietary patterns.

Abstract

Trophic levels are critical for synthesizing species’ diets, depicting energy pathways, understanding food web dynamics and ecosystem functioning, and monitoring ecosystem health. Specifically, trophic levels describe the position of species in a food web, from primary producers to apex predators (range, 1–5). Small differences in trophic level can reflect large differences in diet. Although trophic levels are among the most basic information collected for animals in ecosystems, a human trophic level (HTL) has never been defined. Here, we find a global HTL of 2.21, i.e., the trophic level of anchoveta. This value has increased with time, consistent with the global trend toward diets higher in meat. National HTLs ranging between 2.04 and 2.57 reflect a broad diversity of diet, although cluster analysis of countries with similar dietary trends reveals only five major groups. We find significant links between socio-economic and environmental indicators and global dietary trends. We demonstrate that the HTL is a synthetic index to monitor human diets and provides a baseline to compare diets between countries.


Fonte: EcoDebate

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Poluição dos rios brasileiros reflete falta de prioridade, artigo de Mauro Banderali
[EcoDebate] O estado de São Paulo é, de longe, o mais desenvolvido do Brasil. Entretanto, a poluição dos rios paulistas é um problema que afeta o meio ambiente e a sociedade há décadas. Rios que cortam as grandes cidades são as principais vítimas da poluição proveniente de residências e indústrias, e são vistos como verdadeiros depósitos de esgoto e de lixo em vez de contribuírem com a qualidade de vida da população. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) divulgaram, em 2012, um estudo com dados sobre as características das águas dos dois grandes rios que cortam a capital paulista, Tietê e Pinheiros, ambos extremamente poluídos. A pesquisa identificou 134 elementos químicos diferentes presentes nos trechos urbanos dos rios e concluiu que entre os fatores mais prejudiciais à qualidade da água estão os resíduos industriais e o esgoto doméstico.

Apesar de a região Sudeste do Brasil possuir a maior porcentagem de municípios com rede de esgoto: 95,1%, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); e de São Paulo ser o único estado quase totalmente contemplado pelo serviço, com 99,8% de redes de esgoto, a situação dos rios paulistas reflete claramente uma falta de prioridade em relação à qualidade dos rios que cortam o estado. Infelizmente, o esgoto está presente não só nos rios paulistas, mas em todo o Brasil. Despejado durante décadas sem tratamento, o esgoto causou danos irreparáveis às águas de todo território nacional.

Para se ter uma ideia, de todo o volume de esgoto gerado no país, somente 38% passa por algum tipo de tratamento, segundo dados do Instituto Trata Brasil, divulgados em outubro de 2013. As 100 maiores cidades do país lançam quase oito bilhões de litros de esgoto todos os dias nas águas brasileiras, sem nenhum tratamento. Mais do que isso: mais da metade da população brasileira não possui acesso ao tratamento de esgoto, em pleno século XXI. É insano pensar que todo esse esgoto está sendo despejado em nossos rios e aquíferos para que, posteriormente, façamos o tratamento dessa água novamente, a um custo incontavelmente maior. Para que os rios e os cursos d’água tenham qualidade, é preciso coletar e tratar os esgotos antes de lançá-los nas águas.

Políticas públicas, fiscalização, prevenção e a conscientização da população podem impedir que rios como Tietê e Pinheiros, na cidade de São Paulo, entre tantos outros Brasil afora, continuem sofrendo com a contaminação, o que comprometerá a qualidade da água para o abastecimento em um futuro próximo. A prevenção e o monitoramento das contaminações dos recursos hídricos são responsabilidade da iniciativa privada e do poder público, podendo ser feitas com a aplicação de tecnologias voltadas para o monitoramento dos contaminantes e para a limpeza da água. Mas falta ainda conhecimento e divulgação sobre as dezenas de possibilidades de prevenção e monitoramento para as águas superficiais e subterrâneas. É necessário que se invista em tecnologia para que as gerações futuras possam desfrutar a imensa quantidade de água disponível no território brasileiro, com qualidade.

*Mauro Banderali é especialista em instrumentação hidrometeorológica da Ag Solve


Fonte: EcoDebate

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Secretária de SAÚDE ADMITE A FARSA DO PROGRAMA MAIS MÉDICOS

Brasil investe metade do recomendado pela OCDE para o ensino básico

                     Foto: ABr
O Brasil deve aumentar os investimentos na educação básica para melhorar também o ensino, analisa o diretor de Educação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Andreas Schleicher. Dados coletados pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) de 2012 mostram que o país investe em média US$ 26.765 por estudante entre 6 e 15 anos. Um terço da média dos demais países da OCDE, US$ 83.382. E pouco mais da metade do que o OCDE considera como investimento mínimo por aluno, US$ 50 mil. Representantes do governo reconhecem que é preciso fazer mais e em ritmo acelerado.

“Quando se investe US$ 50 mil por aluno, o dinheiro não importa mais, deixa de ser uma questão limitante para o desempenho do estudante”, diz o diretor da OCDE. Segundo o relatório do Pisa divulgado na última semana, o Brasil ocupa o 58º lugar em matemática, o 55º lugar em leitura e o 59º em ciências em um ranking de 65 países. A prova é aplicada a cada três anos pela organização e avalia o conhecimento de estudantes de 15 anos. A cada ano, o relatório tem uma área como foco. Em 2012, o destaque foi para matemática.

Schleicher diz que o investimento deve aumentar, mas atribui a nota do Brasil também à falta de equidade na distribuição dos recursos. Caso todas as escolas tivessem as mesmas condições de aprendizagem e todos os estudantes cursassem a série adequada para a idade, (como 15 anos na 1ª série do ensino médio), o Brasil poderia chegar aos 460 pontos na avaliação, com o mesmo investimento atual. A pontuação atual é 391.

“Se o país conseguisse eliminar a grande repetição dos alunos e se todo estudante tivesse acesso à educação, o Brasil teria um progresso grande, com o investimento atual. Não fiz as contas, mas acredito que chegaria aos 460 pontos em matemática”, disse. A pontuação conferiria ao Brasil a 43ª posição no ranking.

O relatório trouxe um alerta em relação à aprendizagem, a nota média do país o coloca no nível 1, em um total de seis níveis. O sexto nível é a proficiência. Estar no nível 1 significa que os alunos conseguem fazer apenas operações básicas. Para Schleicher, é necessária uma maior ênfase nas escolas que enfrentam dificuldades. “No Brasil, os melhores professores estão nas melhores escolas. Em países como a China é o oposto, se você é um bom professor você deve ajudar a melhorar o desempenho das escolas desfavorecidas”, diz. Ele também citou a desvalorização dos docentes no país, o que torna a carreira menos atrativa a bons estudantes. O piso para a jornada de 40 horas é R$ 1.567.

Os dados do Pisa apontaram ainda a falta de confiança dos alunos em aprender matemática. “Eles dizem que é preciso ter talento para aprender a disciplina. Isso não ocorre nos países com as melhores pontuações”, diz. Mais de 80% dos estudantes dizem que o conteúdo é muito difícil. Em Xangai, na China, que ocupa o primeiro lugar no ranking, esse índice é pouco mais de 50%. No Brasil, quase 55% dos estudantes acreditam que não têm sorte, contra pouco mais de 30% de Xangai. Mais de 45% dizem que os professores não conseguem fazê-los se interessar. Em Xangai, a porcentagem é 40%.

Apesar do cenário, o coordenador parabenizou o Brasil pelo maior crescimento entre os países que participaram do Pisa. O país que passou de uma pontuação de 356 em 2003 em matemática, para 391 em 2012. O Brasil também avançou na inclusão e na redução da defasagem idade-série. São 420 mil estudantes a mais no sistema de ensino. A porcentagem de alunos do ensino médio que não estavam na série adequada à idade caiu de 54,9% em 2000, para 31,1% em 2012.

Schleicher acredita que, em 21 anos, o Brasil conseguirá alcançar a média da OCDE, que em 2012, chegou a 494 pontos. “As condições atuais sugerem que o Brasil vai ter um crescimento ainda mais acelerado nos próximos anos e talvez alcance esse patamar em menos tempo”.

O presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Luiz Cláudio Costa, disse que “os indicadores nacionais e internacionais permitem aprimorar a análise”. Ele ressaltou que a principal medida para melhorar o ensino é a valorização e a formação do professor. “Somos o país que mais aumentou o investimento de recursos, apesar de ainda aplicarmos um terço da média dos demais países da OCDE. Alocar recursos no professor é fundamental, e o caminho que estamos seguindo [com programas de formação] reforça essa tese e mostra como temos que acelerar”, diz.

Ao analisar os dados Pisa 2012 durante a semana, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, disse que a fotografia da educação no Brasil ainda não é boa, mas destacou que os avanços podem ser considerados uma “grande vitória”. “O resultado em relação a nossa evolução é uma grande vitória da educação brasileira. Não podemos nos acomodar e temos ainda um atraso histórico muito grande quando falamos em qualidade da educação. Fizemos muito, mas temos que fazer muito mais”, disse.

Reportagem de Mariana Tokarnia, da Agência Brasil


Fonte: EcoDebate

domingo, 15 de dezembro de 2013

Planalto mantém novo pacote de pesquisas sob sigilo

Para procurador e especialistas, medida contraria Lei de Acesso à Informação; contratos vão até as ésperas o período eleitoral.
CAIO JUNQUEIRA / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo

O Palácio do Planalto firmou dois contratos avaliados em R$ 6,4 milhões para realizar pesquisas de opinião pública que se estenderão até as vésperas da campanha eleitoral de 2014. Celebrados com o Ibope Inteligência e Virtú Análise na sequência das manifestações de junho, os contratos, que preveem sigilo indefinido dos temas, perguntas e resultados das pesquisas, são os primeiros dessa natureza celebrados pela Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) na gestão Dilma Rousseff após a entrada em vigor da Lei de Acesso à Informação (LAI).
Em sua cláusula segunda, inciso 10, os contratos dizem que os institutos de pesquisa deverão manter "irrestrito e total sigilo" sobre os "assuntos de interesse" do governo. O Estado solicitou o conteúdo das pesquisas já realizadas com base na Lei de Acesso. A Secom, no entanto, rejeitou o pedido. O sigilo contraria entendimento do próprio órgão federal responsável pela transparência, a Controladoria-Geral da União (CGU). Segundo o ouvidor-geral da União, José Eduardo Romão, todas as informações que constam das pesquisas deveriam ser divulgadas imediatamente e o sigilo contratual não afasta o princípio da publicidade. "A informação é pública, mesmo que o contrato estabeleça que a informação é sigilosa. A CGU já entendeu em casos anteriores semelhantes que esse sigilo não afasta a aplicação da Lei de Acesso à Informação. No momento em que a empresa repassa a informação para órgão público, essa informação torna-se pública."

O procurador do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU), Marinus Marsico, também critica a falta de transparência. "É um procedimento perigoso. Pelo princípio da publicidade, tudo é público. Essas informações só podem ser sigilosas se a lei especificar a preservação do sigilo, o que não é o caso. Os documentos quando sigilosos são regulados por lei. Todos têm de entender que isso envolve dinheiro público."

A Secom informa que as pesquisas serão divulgadas três meses após o governo recebê-las. Esse prazo, porém, além de não constar do contrato, não vai ser cumprido na primeira leva de pesquisas porque a Secom definiu que apresentará os resultados apenas em dezembro. Além de serem os primeiros contratos de pesquisa realizados após a LAI, são os primeiros sob a égide de uma nova legislação de 2010, decorrente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Correios, que obrigou, dentre outros pontos, o governo a firmar acordos específicos para pesquisas de opinião sobre serviços públicos. Antes, as agências de comunicação responsáveis pelas campanhas de publicidade também realizavam as pesquisas, em um contrato que abrangia os dois serviços.

Tarefas. O Ibope Inteligência ficou responsável pelas pesquisas quantitativas e telefônicas, ao valor de R$ 4,6 milhões. O Virtú Análise, contratada por R$ 1,8 milhão, cuida das pesquisas qualitativas. Em ambos os casos, o período das pesquisas se encerra a poucos dias do início da campanha eleitoral de 2014. O contrato da Virtú Análise foi fechado no dia 1 de julho deste ano e se encerra em 1 de julho de 2014. O do Ibope foi firmado em 27 de junho e também terminam um ano depois. A campanha eleitoral começa no dia 6 de julho de 2014.

O presidente da ONG Transparência Brasil, Cláudio Abramo, afirma que o modelo adotado pela Secom pode ser aproveitado para fins eleitorais. "São contratos que parecem ser muito vulneráveis. O formato abre possibilidade de que pesquisas realizadas às vésperas da eleição possam ser utilizadas durante a campanha. Além disso, a data do término do contrato, em junho de 2014, é muito conveniente para que as informações adentrem a campanha com exclusividade para apenas uma candidatura", diz.

Para o ministro José Jorge, do TCU, conforme se aproxima o período eleitoral "tudo é olhado pela opinião pública como se tivesse esse viés". "Por isso é bom evitar procedimentos como esse."

Os dois institutos disseram que cláusulas de sigilo são comuns nesses tipos de contrato.

Presidenciáveis. O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), provável candidato a presidente, foi questionado, via assessoria, sobre as pesquisas de opinião contratadas por sua gestão, os valores gastos e os temas abordados, mas não respondeu. Outro provável candidato, o senador Aécio Neves (PSDB-MG), também foi questionado, por meio da assessoria do PSDB, sobre o valor dos contratos de seu partido com institutos de pesquisa. Também não houve resposta.


Fonte: ESTADÃO

Veja abaixo esta noticia antiga que não foi parar na mídia