quinta-feira, 27 de março de 2014

MPF denuncia Noblat por racismo contra Barbosa.
O Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro aceitou a representação criminal do ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa contra o jornalista Ricardo Noblat. A representação acusa o jornalista de racismo, difamação e injúria no texto “Joaquim Barbosa: Fora do Eixo", publicado no site do jornal O Globo. As penas previstas pelos crimes incluídos na denúncia podem somar até 10 anos de prisão.
O MPF considerou o conteúdo do texto "manifestamente racista e ofensivo à honra funcional do ministro". Em outra decisão, a procuradora da República Lilian Guilhon Dore também determinou que a Infoglobo, empresa que publica o jornal O Globo, retire do ar a postagem em 24 horas, contadas do momento da notificação.

Na denúncia, a procuradora aponta as razões dos crimes de difamação, injúria e racismo. E cita o seguinte trecho do texto de Noblat: "Para entender melhor Joaquim, acrescenta-se a cor - sua cor. Há negros que padecem do complexo de inferioridade. Outros assumem uma postura radicalmente oposta para enfrentar a discriminação".

Sobre esse trecho, o MPF comenta: "Para o denunciado só existem dois tipos de negros, os que padecem do complexo de inferioridade e os autoritários". E, logo depois, conclui: "Assim sendo, a ação do denunciado, conscientemente voltata à incitação pública à discriminação racial e ao preconceito contra os negros em geral e contra o ofendido em particular, é manifestantemente dolosa e merece ser severamente punida". 

Para a procuradora, o crime é agravado pelo fato de o artigo estar disponível na internet e ter sido publicado em um jornal de grande circulação: "Tal postura, inclusive, prejudica a imagem do Poder Judiciário dentro da nossa democracia”.


Tribunal investiga juiz responsável por presos do mensalão.
A corregedoria do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) abriu investigação preliminar para avaliar a conduta do juiz Bruno André Silva Ribeiro na condução das execuções das penas dos condenados na Ação Penal 470, o processo do mensalão. Diante da abertura da investigação, o juiz se declarou impedido por motivo de foro íntimo para analisar as questões relacionadas aos condenados.
A investigação preliminar foi aberta para apurar suposta falta disciplinar do juiz ao solicitar informações ao governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, sobre supostas regalias concedidas aos condenados no processo do mensalão.

Em um despacho divulgado hoje (26) no processo que trata da análise de trabalho externo do ex-deputado João Paulo Cunha, preso na Penitenciária da Papuda, Ribeiro disse que se afastará da condução dos processo dos condenados até a manifestação conclusiva da Corregedoria. Ele apresentou o mesmo argumento em despacho relacionado no processo de execução da pena do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, preso na Papuda.

“Declaro-me suspeito por motivo de foro íntimo relativamente às execuções penais envolvendo os sentenciados da Ação Penal 470/STF, pelo menos até a manifestação conclusiva acerca da suposta infração disciplinar consistente em solicitar informações ao chefe do Poder Executivo local, tudo no pleno exercício da jurisdição e em atenção à legislação pertinente”, afirmou Ribeiro.

No dia 27 de janeiro, o juiz deu 48 horas para o governador Agnelo responder se instaurou medidas para investigar regalias para os presos da Ação Penal 470, como visitas fora dos dias autorizados e alimentação diferenciada. Em resposta ao pedido de informações de Ribeiro, o governo do Distrito Federal disse que não há regalias a nenhum preso no sistema penitenciário do DF nem ingerência na gestão dos presídios.


Biopirataria X internacionalização: a utilização econômica da biodiversidade. Entrevista com André de Paiva Toledo.

“Não apenas as riquezas naturais da Amazônia, mas dos trópicos de maneira geral, têm sido sistematicamente exploradas como matéria-prima do setor de produção econômica de tipo capitalista, implementado globalmente a partir do século XVI”, denuncia o advogado.

             Foto: Envolverde
     
A exploração dos recursos naturais sem autorização do poder público, conhecida como biopirataria, é um processo recorrente na história do Brasil. Entretanto, o país “não rompe com esse modelo, porque há nele uma relação de interdependência econômica internacional que cria uma série de obstáculos a um rompimento absoluto. Ou seja, os demais Estados, frequentemente apoiados por setores da própria sociedade brasileira e em vista de seus interesses, pressionam o Brasil no sentido de se manter nessa condição”, explica André de Paiva Toledo, em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail.

Entre as implicações dessa atividade ilegal, Toledo destaca o impedimento do Estado de origem dos recursos naturais em exercer direitos soberanos no processo de utilização econômica dos produtos gerados a partir da biopirataria. “Isso faz com que o Estado de origem não apenas deixe de se beneficiar quando da seleção de espécimes, mas seja obrigado a adquirir os produtos sem qualquer transferência de recursos financeiros e biotecnológicos”, acentua.

André de Paiva Toledo, que ministrará a palestra Biopirataria e Direito Internacional no I Congresso de Direito, Biotecnologia e Sociedades Tradicionais, que ocorre hoej e amanhã, na Unisinos, também chama a atenção para a discussão acerca da internacionalização da Amazônia que, apesar de ser positiva, “não é discutida nos termos da teoria do patrimônio comum da humanidade”. E esclarece: “Faz-se de maneira implícita nos fóruns internacionais de normalização do Direito Internacional do Comércio, especialmente no que concerne ao direito de propriedade intelectual. Atualmente a internacionalização da Amazônia é feita de maneira paulatina, com a concessão, por parte de Estados do Norte, de registro de patente de elementos que fazem parte do ecossistema amazônico. Pode-se dizer que esta forma de internacionalização é muita menos ruidosa que a primeira e, consequentemente, mais difícil de se perceber. Daí sua eficiência”.

André de Paiva Toledo é doutor em Direito pela Université Panthéon-Assas Paris II. É professor de Direito da Escola Superior Dom Helder Câmara e da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas.
                      Foto: Ache Tudo e Região

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor diz que a exploração sistemática das riquezas naturais da Amazônia iniciou ainda no século XV e, desde então, não foi cessada. Quais são os mecanismos de exploração envolvidos nesse processo e por que o Brasil não rompe com ele?

André de Paiva Toledo - Não apenas as riquezas naturais da Amazônia, mas dos trópicos de maneira geral, têm sido sistematicamente exploradas como matéria-prima do setor de produção econômica de tipo capitalista, implementado globalmente a partir do século XVI. A menção ao século XV é feita para coincidir com o início das grandes navegações, que permitiram aos europeus, especialmente aos ibéricos, conquistar novos territórios de onde pudessem obter matéria-prima para sua burguesia. O Brasil entrou nesse sistema em 1500, quando aqui aportou Pedro Álvares Cabral, e tem permanecido um dos grandes parceiros do setor capitalista industrial ao cumprir a função de fornecedor de matéria-prima, de mão de obra barata e de mercado consumidor de mercadorias produzidas no exterior. A Amazônia, por sua vez, pelas dificuldades de acesso humano, é mais especificamente mencionada nesse contexto no século XIX, com o fornecimento de borracha para a indústria automobilística, especialmente dos Estados Unidos.

Nos séculos seguintes, com a queda da demanda por borracha amazônica, esse importante espaço sul-americano transformou-se em fornecedor de matéria-prima para a produção biotecnológica, fundada das indústrias farmacêutica, cosmética e alimentar. O Brasil não rompe com esse modelo porque há nele uma relação de interdependência econômica internacional que cria uma série de obstáculos a um rompimento absoluto. Ou seja, os demais Estados, frequentemente apoiados por setores da própria sociedade brasileira e em vista de seus interesses, pressionam o Brasil no sentido de se manter nessa condição. O Golpe de Estado contra o governo de João Goulart, por exemplo, que neste mês completa 50 anos, é um exemplo de como é difícil para um país detentor de riquezas naturais (biológicas ou não) se opor soberanamente a um sistema econômico internacional de tipo colonial. Isso sem mencionar o fato de que boa parte da exploração dos recursos naturais da Amazônia é feita à margem do Direito, sem que o Estado brasileiro consiga controlar.

IHU On-Line – Como e por que se discute a internacionalização da Amazônia? Quais são os discursos referentes a essa temática?

André de Paiva Toledo - A internacionalização da Amazônia foi discutida a partir do início da década de 1980, quando, diante do acúmulo de catástrofes ambientais e do desenvolvimento cada vez mais veloz de produtos biotecnológicos (farmacêuticos, cosméticos e alimentares), propôs-se que a biodiversidade da Amazônia fosse considerada uma espécie de patrimônio comum da humanidade do qual toda a coletividade global pudesse usufruir livremente, seja como reserva florestal mundial, seja como celeiro de recursos para a bioindústria. Discute-se essa questão de forma tão apaixonada porque a internacionalização de um determinado objeto significa, na prática, a extinção da soberania dos Estados em que ele se encontra, como é o caso, por exemplo, do espaço sideral da Antártida e do alto-mar. A intenção era retirar dos Estados amazônicos (Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela) a competência de administrar soberanamente aqueles espaços. Hoje, a questão da internacionalização da Amazônia não é discutida nos termos da teoria do patrimônio comum da humanidade. Faz-se de maneira implícita nos fóruns internacionais de normalização do Direito Internacional do Comércio, especialmente no que concerne ao direito de propriedade intelectual. Atualmente a internacionalização da Amazônia é feita de maneira paulatina, com a concessão, por parte de Estados do Norte, de registro de patente de elementos que fazem parte do ecossistema amazônico. Pode-se dizer que esta forma de internacionalização é muito menos ruidosa que a primeira e, consequentemente, mais difícil de se perceber. Daí sua eficiência.

“Boa parte da exploração dos recursos naturais da Amazônia é feita à margem do Direito sem que o Estado brasileiro consiga controlar”

IHU On-Line – Em seu livro, menciona que o discurso da internacionalização encobre a desnacionalização das riquezas dos Estados sul-americanos. Nesse contexto, como a questão indígena e os saberes tradicionais são tratados diante desse discurso de internacionalização?

André de Paiva Toledo - Se pensarmos em termos do Direito Internacional, os conhecimentos tradicionais dos indígenas associados aos recursos biológicos recebem o mesmo tratamento, isto é, estão submetidos à soberania do Estado titular da soberania territorial. Grosso modo, especialmente diante do discurso sobre a internacionalização, o patrimônio cultural indígena é tratado como parte do conceito de biodiversidade, inclusive por estarem intrinsecamente relacionados aos recursos da fauna e da flora, de modo que muitas vezes não possa tratá-los separadamente. Entretanto, em termos mais específicos, por serem objetos culturais, há evidentemente algumas distinções de tratamento entre eles e os objetos essencialmente naturais.

Não é à toa que diversas normas jurídicas internacionais prevejam a participação obrigatória dos possuidores desses conhecimentos tradicionais em todo projeto de utilização levado a cabo pelo Estado titular da soberania territorial. Assim, quando ocorre, em outro país, o registro da propriedade intelectual de um elemento dos saberes indígenas, está-se diante do mesmo fenômeno já mencionado da internacionalização pela privatização, ou seja, um outro Estado concedeu soberanamente a alguém a titularidade do direito de propriedade intelectual sobre aquele objeto e, consequentemente, coloca à sua disposição todas as ferramentas de proteção da propriedade privada, tanto no âmbito interno quanto no âmbito internacional. Falamos em internacionalização porque, em termos do Direito Internacional, ocorrerá, neste caso, uma dupla incidência de soberanias sobre o mesmo objeto.

“A biopirataria é a transferência transfronteiriça de um recurso biológico sem o consentimento prévio fundamentado do Estado de origem”

IHU On-Line – A internacionalização da Amazônia está na pauta das preocupações nacionais prioritárias? Que ações são realizadas nesse sentido?

André de Paiva Toledo - O Brasil sempre esteve preocupado com a internacionalização da Amazônia. Trata-se de uma preocupação — como você bem mencionou — nacional, pois vemos, nos últimos 30, 40 anos, todos os governos se dedicando à questão, sejam militares, sejam civis, de direita e de esquerda. Percebe-se que a proteção da soberania nacional na Amazônia é um ponto que une bem a sociedade brasileira, independentemente de seu viés político. Além disso, o Brasil é tradicionalmente um país muito atuante e respeitado na comunidade internacional. Quando, por exemplo, encerrou-se a iniciativa de internacionalizar a Amazônia pela aplicação da teoria do patrimônio comum da humanidade, no início da década de 1990, o Brasil foi um dos Estados que exigiram a reafirmação da soberania nacional sobre os recursos biológicos, feita no texto da Convenção sobre Diversidade Biológica, resultado dos debates da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, ocorrida justamente no Brasil, mais especificamente na cidade do Rio de Janeiro.

Atualmente o Brasil faz parte do Grupo de Países Megadiversos Afins, isto é, uma reunião dos Estados com grande riqueza biológica, cujo propósito é coordenar ações internacionais de combate à biopirataria e, consequentemente, à internacionalização pelo registro da propriedade intelectual. Em conjunto com outros países ricos em biodiversidade, o Brasil tem liderado as posições em favor da reforma do sistema internacional da propriedade intelectual tanto na Organização Mundial da Propriedade Intelectual quanto na Organização Mundial do Comércio.

IHU On-Line – Como o processo de biopirataria ocorre no Brasil? Quais são os principais atores envolvidos nesses casos e quais são as implicações sociais, ambientais e econômicas desse processo?

André de Paiva Toledo - O processo de biopirataria acontece no Brasil de maneira semelhante àquela ocorrida em outros países ricos em biodiversidade. Realiza-se, sem qualquer autorização por parte do Poder Público, nos locais biologicamente estratégicos (na Amazônia, por exemplo), trabalho de campo de seleção de espécimes interessantes para a bioindústria, muitas vezes — mas não necessariamente — com auxílio de membros de comunidades indígenas contratados para facilitar a identificação dos recursos. Esse trabalho de campo é liderado por um especialista que sabe identificar as potencialidades bioquímicas da fauna e da flora. Este especialista pode ser agente do próprio laboratório ou instituto de pesquisa estrangeira, muitas vezes travestido de missionário ou ativista; pode ser membro de organização não governamental de proteção ambiental com atividade naquele ecossistema; pode ser inclusive um pesquisador nacional contratado pelo laboratório ou instituto de pesquisa. Feito o trabalho de campo, os espécimes selecionados são acondicionados de forma a facilitar sua remessa para o exterior. Esta etapa é realizada normalmente longe do local de trabalho de campo, sem a participação de membros das comunidades indígenas. Deve-se colocar os espécimes em embalagens que impeçam sua identificação quando da remessa para o exterior. Esta se dá evidentemente de forma clandestina, utilizando-se sistemas próprios do tráfico de drogas, armas e pessoas, o que implica a utilização de rotas alternativas e, eventualmente, a cooptação de agentes de controle de fronteira.

Ocorre que, muitas vezes, o que é contrabandeado são elementos muito pequenos da biodiversidade como, por exemplo, folhas, pétalas ou pólen, que são facilmente escondidos e dificilmente controlados na saída do país. A grande implicação da biopirataria é socioeconômica. Ao impedir que o Estado de origem do recurso exerça seus direitos soberanos no processo de utilização econômica, a biopirataria acaba por privar esse Estado de compartilhar dos benefícios advindos da produção e comercialização de medicamentos, cosméticos e alimentos. Isso faz com que o Estado de origem não apenas deixe de se beneficiar quando da seleção de espécimes, mas seja obrigado a adquirir os produtos sem qualquer transferência de recursos financeiros e biotecnológicos. É a face mais radical do neocolonialismo, em que os países tropicais têm suas riquezas naturais levadas clandestinamente para os países desenvolvidos, os quais, por sua vez, transformam tais riquezas em mercadorias a serem posteriormente vendidas àqueles. O Estado de origem fornece matéria-prima e mão de obra a baixo custo e importa os produtos industrializados com o preço de mercado.

“Não se pode confundir biopirataria com internacionalização, embora os termos sejam conexos à utilização econômica da biodiversidade”

IHU On-Line – Como, juridicamente, os casos de biopirataria são tratados no país?

André de Paiva Toledo - No âmbito interno, o Brasil não tem atuado de forma tão interessante quanto externamente. Isso se deve muito ao fato de que a biopirataria é um problema de abrangência internacional. Isso não significa, entretanto, que internamente não se deva dar um tratamento mais específico à questão. Pelo contrário, vimos que o início do fenômeno da biopirataria inicia-se no território do Estado prejudicado, sendo necessária uma legislação interna capaz de combater eficazmente a questão enquanto ela se dá no interior de suas fronteiras.

No Brasil, há a Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/1998) que ainda não tipifica o crime de biopirataria, o que dificulta sua repressão. Outra norma ambiental importante é a Medida Provisória 2.186/2001, cujo objetivo é proteger o patrimônio genético brasileiro ao regulamentar internamente alguns aspectos da Convenção sobre Diversidade Biológica de 1992. Nesta Medida Provisória, há menção expressa de que o acesso aos recursos genéticos localizados no território brasileiro depende de autorização expressa da União.

Pode-se encontrar nesta norma também a previsão de medidas de participação do Estado, titular da soberania sobre os recursos biológicos, nos lucros das empresas que utilizarem material obtido no território brasileiro. Se o Poder Legislativo é lento para modernizar o Direito brasileiro sobre a biopirataria, o Poder Executivo, fora a medida provisória mencionada, tem agido por meio do Ministério do Meio Ambiente para que sejam adotadas medidas mais claras sobre o assunto. De fato, o Conselho de Gestão do Patrimônio Genético, em conjunto com o Instituto Nacional de Propriedade Intelectual, tem trabalhado para fixar um regime que impeça a concessão de patente sobre produto derivado da biodiversidade sem a apresentação prévia da autorização da União.

“A biopirataria só será de fato eficazmente combatida quando houver a modificação dessas normas internacionais comerciais”

 IHU On-Line – Como a biopirataria é tratada no âmbito do Direito Internacional?

André de Paiva Toledo - Internacionalmente, a biopirataria é mal definida. Alguns entendem que ela significa a apropriação do recurso biológico pelo sistema internacional de propriedade intelectual. Não concordamos com isso. A biopirataria é a transferência transfronteiriça de um recurso biológico sem o consentimento prévio fundamentado do Estado de origem, independentemente do que se vai fazer com o dito recurso posteriormente. Mesmo que não haja qualquer utilização econômica e, por consequência, qualquer concessão de direitos de propriedade intelectual, a biopirataria existe como fato consolidado. Como vimos, esta concessão de patente significa a internacionalização do recurso pela dupla incidência de soberanias. Não se pode confundir biopirataria com internacionalização, embora os termos sejam conexos à utilização econômica da biodiversidade. Apesar de falta de consenso do que seja biopirataria internacionalmente, é fato que o Direito Internacional assegura e reafirma a soberania do Estado sobre os recursos biológicos de seu território. Logo, este Estado deve ser sempre consultado quando houver interesse em ter acesso aos seus recursos naturais. Entretanto, a brecha que ainda existe para o fomento da biopirataria é aquela que o Direito Internacional do Comércio abre.

Quando a Organização Mundial do Comércio não impede o patenteamento de seres vivos, ou quando não exige a apresentação do certificado de origem do recurso biológico utilizado no objeto a ser patenteado, isso corresponde, na prática, a um incentivo substancial ao acesso clandestino de recursos biológicos. A biopirataria só será de fato eficazmente combatida quando houver a modificação dessas normas internacionais comerciais. É por esta reforma do sistema internacional de propriedade intelectual que tem se batido o Brasil e os demais países ricos em biodiversidade.

Fonte: IHU On-line
As cidades, a população e o nosso futuro comum, artigo de Washington Novaes.
Foto: Oswaldo Corneti/ Fotos Públicas

O noticiário dos jornais e da televisão anda sobrecarregado de informações sobre os nossos grandes dramas urbanos – falta de mobilidade, transportes precários, inundações, violência, etc. – e a ausência de perspectiva de soluções, com o número de habitantes crescendo. Ao mesmo tempo, leitores mandam mensagens para o autor destas linhas sugerindo que o único caminho seria reduzir a população – o Brasil já tem 85% da população nas cidades, só 15% nas zonas rurais (cerca de 30 milhões de pessoas). E continua a migração campo-cidades.

Cresce a expectativa de vida, que era de 63 anos e 7 meses em 1980 e já está em torno de 75 anos. Mas dos nossos 57 milhões de domicílios, segundo o IBGE, apenas 52,5% são adequados, com abastecimento de água, coleta de esgotos e de lixo – 27 milhões não contam com esses serviços. Nossa população teve aumento de 150 milhões de pessoas em 60 anos, já está em mais de 200 milhões, conforme o IBGE, e evoluirá para 228 milhões nas próximas décadas, até se estabilizar.

Na cidade de São Paulo, são mais 45.500 habitantes por ano, que elevarão a população para 12,2 milhões em 2030, segundo a Fundação Seade, quando a metrópole terá mais idosos que jovens (Estado, 23/1). A cada segundo, no mundo, um pessoa chega aos 60 anos. São mais de 800 milhões de idosos no todo; no Brasil, 23,8 milhões (Estado, 2/10/2012).

Como se faria para mudar o quadro? Entre estudiosos, as visões não são otimistas. Relatório da Royal Society, por exemplo (Folha de S.Paulo, 6/5/2012), ao mesmo tempo que adverte para a necessidade de reduzir o consumo (energia, alimentos) e a produção de lixo, principalmente nos países mais ricos, calcula que a população mundial poderá chegar a 15 bilhões em 2100, partindo dos mais de 7 bilhões de hoje. Já relatório da ONU prevê 9,6 bilhões em 2050. A Índia ultrapassará a China em 2028, com 1,45 bilhão; a população europeia diminuirá 14%; e a expectativa de vida em certas partes poderá estar acima de 80 anos em 2100, com 89 anos no Primeiro Mundo e 81 nos outros países. Pela primeira vez haverá mais pessoas acima de 60 anos do que crianças com menos de 5 (Fundo de População da ONU).

Outro relatório divulgado há pouco, da Oxford Martin Commission for Future Generations – da qual fazem parte o Prêmio Nobel Amartya Sen, a presidente chilena Michelle Bachelet, o ex-ministro brasileiro Luiz Felipe Lampreia e o ex-presidente do Banco Central Europeu Jean-Claude Trichet, entre outros -, depois de confirmar que seremos 8 bilhões de pessoas no mundo em 2025 e 9 bilhões em 2050, calcula que 60% do aumento da população em 2050 virá da Ásia e da África e 74% desse crescimento estará nos países mais pobres. E os idosos serão uma parte cada vez maior da força de trabalho.

Os mercados “emergentes”, concentrados nas cidades, passarão de um terço para dois terços a sua participação no mercado de consumo. Como convencê-los a reduzir esse consumo, agora que a ele chegam? Hoje, mais de 1,2 bilhão de pessoas, segundo o Banco Mundial, não têm acesso à energia elétrica, 550 milhões das quais na África e 400 milhões na Índia. Com todas as mudanças globais, os índices de concentração da riqueza continuaram a crescer nos últimos anos. Um terço da força de trabalho está desempregada ou é “muito pobre”. Chegaremos a 2015 ainda com 200 milhões de desempregados no mundo. Os jovens terão uma taxa de desemprego três a quatro vezes maior que a média. Mulheres, que são 66% da força de trabalho, ficam com 10% da renda e 1% da propriedade. Os idosos, que já são 38% da força de trabalho, chegarão a uma porcentagem bem maior em 2050.

Clima e outros fatores continuam a chamar a atenção para a crise de energia, no momento em que o consumo é seis vezes maior que em 1950. O consumo per capita dobrou. A produção de alimentos responde por um terço do consumo de energia e 70% do uso de toda a água no planeta. Como se fará para aumentar a produção, com mais terras, energia e água, nesse panorama? Das terras agrícolas, 80% estão nos países menos desenvolvidos e já ocupadas. Metade da população mundial não recebe água de boa qualidade. Cerca de 40% das terras estão degradadas. A desertificação avança (de acordo com outros estudos) 60 mil quilômetros quadrados por ano.

O panorama da biodiversidade não é mais animador, com uma em cada quatro espécies ameaçadas de extinção, um terço dos vertebrados desaparecidos em 40 anos. E a biodiversidade é nossa possibilidade de um futuro melhor, já que dela virão novos alimentos, novos materiais para substituir os que se esgotarem. Edward Wilson, o biólogo que provavelmente mais estudou e conhece essa biodiversidade, já escreveu (O Futuro da Vida, Editora Campus, 2002) que “precisamos com urgência de uma ética para a Terra”, pois “estamos à beira de um apocalipse no início do terceiro milênio”. Para ele, “a ciência e a tecnologia devem nos ajudar a encontrar uma saída”.

Esta é a questão: temos de enfrentar a crise do padrão civilizatório, encontrar e praticar novos formatos de viver. Que certamente exigirão uma redistribuição de recursos entre países e setores sociais. Não se vislumbram outras possibilidades. Como se reduzirá a população? Proibindo casamentos e nascimentos? Até a China está renunciando aos caminhos nessa direção herdados da era de Mao Tsé-tung.

Voltando às cidades, não temos políticas para desconcentrar a população. Continuamos a dar incentivos fiscais para a venda de mais automóveis – com mais congestionamentos. Os incentivos fiscais no País são R$ 33 bilhões maiores que a soma dos investimentos em obras públicas (Folha de S.Paulo, 16/3). O governo federal tem a receber de empresas, na dívida ativa, mais de R$ 1trilhão – mas não recebe (15/3). Que se espera que aconteça?

O problema não está nas nossas taxas de nascimentos, já abaixo da taxa de reposição. Mas só isso não resolve.

*Washington Novaes é jornalista. E-mail: wlrnovaes@uol.com.br.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Barbárie SOCIOAMBIENTAL - Governo do Rio de Janeiro ignora legislação para favorecer Thyssenkrupp-Vale em Santa Cruz.
TKCSA em Santa Cruz - Zona Oeste do Rio de Janeiro

Órgãos estaduais, como a Secretaria de Ambiente, CECA (Comissão de Controle Ambiental) e INEA (Instituto do Ambiente), facilitam farsa de audiência pública para Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA) fugir de multas e obrigações ambientais. O “encontro” está marcado para às 19h dessa quinta-feira, 27 de março, no Clube Oriente – Rua Nestor, nº 1137, em Santa Cruz.

Num comportamento nada transparente em relação ao seu dever de gestor do Estado, cuja principal obrigação é zelar pelos interesses econômicos e sociais da população, o governo Sérgio Cabral e a Secretaria de Estado do Ambiente, entre outras pastas, não cobram da Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA) seus deveres legais com o Rio de Janeiro e a nação.

Estima-se que mais de R$ 5 bilhões em recursos públicos municipais, estaduais e federais já foram aplicados na empresa.

A audiência de prestação de contas dos resultados da Auditoria Ambiental e da Avaliação Socioterritorial para cumprimento do Termo de Ajuste de Conduta (TAC 02/2012) foi marcada pela Secretaria com a antecedência obrigatória de 15 dias para sua realização sem a ampla divulgação e publicidade dos documentos a serem supostamente avaliados na audiência, conforme determinam os preceitos legais estabelecidos pelos próprios órgãos estaduais envolvidos.

O Conselho Estadual do Meio Ambiente (CONEMA), por exemplo, estabelece: o empreendedor deve publicar as informações sobre a audiência no Diário Oficial do Rio de Janeiro e no primeiro caderno de, no mínimo, três jornais de grande circulação; usar meios de comunicação adaptados às especificidades locais como informativos, faixas e cartazes em lugares públicos e de grande visibilidade e divulgar a convocação na página inicial de seu sítio na internet.

É fundamental destacar que a TKCSA, apesar de ser um dos maiores empreendimentos privados na América Latina, tem causado sucessivos prejuízos sociais, ambientais, econômicos e de saúde pública não apenas aos habitantes da região oeste da cidade do Rio ou do seu entorno. Desde sua implantação, em 2006/2007, e do início de seu funcionamento, em 2010, a empresa não obteve licença de operação, ainda que sua licença de instalação tivesse sido renovada até o limite máximo de tempo permitido pela autoridade ambiental (seis anos).

Conseguiu operar graças ao Termo de Ajuste de Conduta (TAC), de 20 de março de 2012, que ampliou para dois anos o prazo para obtenção da licença. Como o prazo findará em 10 de abril, o objetivo desta "audiência pública"- feita às escondidas - é de, mais uma vez, tentar ludibriar a sociedade e os cofres públicos, colocando em risco a saúde de cidadãos, a fauna e a flora da Baía de Sepetiba.

No passado, a TKCSA, que não conseguiu implantar seu projeto de siderurgia no Maranhão, justamente pela forte resistência da população, órgãos estaduais e ambientalistas, já foi investigada por uma Comissão na Assembleia Legislativa, possui duas ações penais movidas pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro e foi alvo de reportagens no Brasil e no Exterior.

Entre os poluentes emitidos pela siderúrgica estão o benzeno, causador de problemas neurológicos, anemia, leucopenia (insuficiência de glóbulos brancos) e trombocitopenia (insuficiência de plaquetas). Em Santa Cruz, a emissão de poluentes vem provocando uma constante “chuva de prata”, poeira de material particulado, que cai sobre casas e pessoas, causando doenças dermatológicas e respiratórias, entre outras.

Os que mais sofrem com essa irresponsabilidade são crianças e idosos, principalmente com problemas pulmonares e dermatológicos.

Informações

Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS) + 55 (21) 2210 21 24

Karina Kato +55 (21) 985292802

Sandra Quintela +55 (21) 988426472

Myrian Luiz Alves  - Assessoria de Comunicação + 55 (21) 98080.7004 

Poluição causou 7 milhões de mortes em 2012.
Cerca de 7 milhões de pessoas morreram em 2012 por exposição à poluição do ar, que se transformou no maior fator de risco ambiental para a saúde no mundo, alerta hoje (25) a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Segundo os novos dados divulgados nesta terça-feira, uma em cada oito mortes naquele ano foi causada pela exposição à poluição do ar, dado que duplica números anteriores e confirma que a poluição do ar é agora o maior fator de risco ambiental para a saúde humana.

Reduzir a poluição do ar poderia salvar milhões de vidas, destaca a OMS em comunicado. “Os riscos da poluição do ar são agora muito maiores do que se pensava, particularmente no que diz respeito a doenças coronárias e acidente vascular cerebral [AVC]”, disse Maria Neira, diretora do Departamento da OMS para a Saúde Pública, Ambiente e Determinantes Sociais da Saúde.

“Poucos fatores de risco têm hoje maior impacto na saúde global do que a poluição do ar; as evidências alertam-nos que é preciso uma ação concertada para limpar o ar que respiramos”, acrescentou.

Segundo as estimativas divulgadas, a poluição do ar interior esteve ligada a 4,3 milhões de mortes em 2012 em lares com fogões a carvão, lenha ou biomassa. A poluição do ar exterior está na origem de 3,7 milhões de mortes em todo o mundo.

Como há muitas pessoas expostas à poluição interior e exterior, a mortalidade associada às duas fontes não pode ser simplesmente adicionada, daí a estimativa de 7 milhões de mortes em 2012.

Os novos dados, adianta a agência da ONU para a saúde, revelam uma ligação mais forte entre exposição à poluição do ar interior e exterior e as doenças cardiovasculares, como o AVC e a cardiopatia isquêmica, assim como a poluição do ar e o câncer. Essas ligações juntam-se ao papel da poluição do ar no desenvolvimento de doenças respiratórias, incluindo infecções agudas e doenças pulmonares obstrutivas crônicas.

As novas estimativas baseiam-se não só em mais conhecimento sobre as doenças causadas pela poluição do ar, mas também em avaliações mais rigorosas da exposição humana aos poluentes, por meio de melhores medições e tecnologias. Essas melhorias permitiram aos cientistas analisar detalhadamente os riscos para a saúde em uma cobertura geográfica mais ampla.

Em termos regionais, os países de baixo e médio rendimento nas regiões do Sudeste Asiático e do Pacífico Ocidental registraram maior número de mortes associadas à poluição do ar, com um total de 3,3 milhões de mortes ligadas à poluição do ar interior e 2,6 milhões de mortes associadas à poluição do ar exterior.

“Limpar o ar que respiramos previne doenças não transmissíveis e reduz as doenças entre as mulheres e os grupos vulneráveis, como as crianças e os idosos”, disse Flavia Bustreo, diretora adjunta da OMS para a Saúde da Família, Mulheres e Crianças, citada no comunicado da OMS.

“As mulheres e as crianças pobres pagam um preço elevado pela poluição do ar interior porque passam mais tempo em casa, respirando fuligens de fogões a carvão e a lenha”, explicou.

Segundo os dados da OMS, 80% das mortes associadas à poluição do ar interior devem-se a doenças cardiovasculares, como a cardiopatia isquêmica (40%) e o acidente vascular cerebral (40%).

A doença pulmonar obstrutiva crónica (Dpoc) é responsável por 11% das mortes ligadas à poluição interior, enquanto o câncer de pulmão (6%) e as infeções respiratórias agudas em crianças (3%) respondem pelo restante.

No que diz respeito à poluição do ar exterior, 34% das mortes devem-se ao AVC, 26% à cardiopatia isquêmica, 22% à Dpoc, 12% a infeções respiratórias agudas em crianças e 6% ao câncer de pulmão.

*Com informações da Agência Lusa


Fonte: ONU BR
Nasa prevê colapso da humanidade nas próximas décadas.
Foto: Wikipedia

A humanidade está na iminência de um colapso por conta da instabilidade econômica e do esgotamento dos recursos naturais. Essa foi a conclusão de um estudo financiado pela Nasa, a agência espacial norte-americana. Com o uso de modelos matemáticos a agência norte-americana previu o colapso do planeta Terra mesmo quando eram feitas estimativas otimistas, segundo o jornal britânico Independent.

Usando como modelo o colapso de antigas civilizações, como Roma, Gupta (indiana) e Han (chinesa), a Nasa concluiu que a elite da atual sociedade elevou o padrão de consumo a níveis preocupantes, disparando um alerta de colapso da nossa civilização baseada em cidades e na industrialização. "Esse ciclo de crescimento-colapso é recorrente na história da humanidade", explica o matemático Safa Motesharri.

Motesharri e sua equipe exploraram diversos fatores capazes de causar a extinção da sociedade, como as mudanças climáticas, o crescimento populacional, por exemplo. Os pesquisadores descobriram que a junção desses fatores, aliada à escassez de recursos e a divisão da sociedade entre elite e massas termina por destruir esse arranjo social. Assim aconteceu em todos os impérios da Antiguidade, explica o cientista.

Entretanto, o cientista não considera o fenômeno irreversível. Para evitar o colapso da sociedade, o cientista diz que será necessária uma ação das verdadeiras elites para restaurar o equilíbrio econômico e do uso dos recursos naturais - essa é a única maneira de deter o impacto da ação humana sobre o meio ambiente. E aí, você também acha que estamos a caminho de destruir nossa sociedade?


Obras da Transposição do rio São Francisco ameaçam terras indígenas.
Povos Truká e Pipipan sofrem impactos das obras e temem ver terras alagadas antes de demarcação oficial.

Por Renata Bessi, especial para a Repórter Brasil

Cabrobró (PE) e Floresta (PE) - Fincados na caatinga do semiárido pernambucano, em terras secas por onde andou o cangaceiro Lampião, estão os povos indígenas Truká e Pipipan. Vivem nas proximidades do Rio São Francisco, respectivamente nas cidades de Cabrobó e Floresta, distantes 94 quilômetros uma da outra e a cerca de 600 quilômetros da capital Recife. Não faltam a eles características em comum. Habitam terras herdeiras da violência do cangaço, vivem a pior seca dos últimos 50 anos, viram seu chão sendo submerso pela represa de Itaparica em fins da década de 1980, estão no chamado polígono da maconha com inúmeros conflitos agrários, e são vizinhos de Itacuruba, cidade para a qual o governo federal guarda projeto de construção de uma usina nuclear.
Meninas do povo Pipipan

Em comum possuem também a ameaça à demarcação de suas terras, principal bandeira de reivindicação dos indígenas, pelas obras da transposição do São Francisco, uma das maiores obras de infraestrutura do governo federal. As duas tomadas de águas do rio, que serão levadas por dois canais sertão adentro, estão sendo construídas em territórios reivindicados pelos Truká e Pipipan em Cabrobó e Floresta.

Por um mês, a reportagem percorreu terras do sertão de Pernambuco e apurou questões enfrentadas por esses povos, como o conflito de terras e pela água, grileiros, desmatamento, problemas agravados com as obras da transposição.

Clique nos links abaixo para navegar por esta reportagem especial.
A relação dos povos indígenas com as terras, florestas e águas do São Francisco
Indígenas acompanham com apreensão abertura de novos canais
Desde a década de 1980 indígenas tentam recuperar áreas desmatadas
Liderança indígena conta história da retomada dos Truká e de violências sofridas
Ministério da Integração havia reservado R$ 6,3 milhões para gastos
Estudos têm omissões graves e recuperação ambiental é insuficiente

Identidade dos indígenas é questionada e perseguições continuam

 Fonte: EcoDebate

terça-feira, 25 de março de 2014

Estudo afirma que número de mortes na preparação para a Copa de 2022 chega a 1,2 mil.
Responsável pela pesquisa foia Confederação Sindical Internacional.
AFP/AL-WATAM DOHA/AFP - Blatter aperta a mão do de Mohammed bin Hamad al-Thani, presidente doi Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2022, em 9 de novembro em Doha.

As obras para a Copa de 2022 no Catar já começaram e, com elas, o número de falecimentos durantes os trabalhos não param de subir. De acordo com a CSI (Confederação Sindical Internacional), 1,2 mil trabalhadores já morreram enquanto participavam das obras no Catar. As principais causas dos óbitos foram acidentes de trabalho, ataques cardíacos e doenças geradas pela situação precária no país.

Ainda segundo a entidade, todas as vítimas são imigrantes. Vale ressaltar que  a população do Catar é composta em sua maioria por estrangeiros. Para a CSI, cerca de 4 mil pessoas irão perder suas vidas até o fim das obras. Em entrevista ao "The Wall Street Journal", o comitê organizador da Copa no Catar reconheceu problemas de infraestrutura, mas afirmou que as informações sobre os óbitos não são acuradas.

Vai faltar água, artigo de Montserrat Martins.
No Dia Mundial da Água, saibam as novas gerações urbanas que já nasceram sob o gosto ruim das águas de torneiras, mas nem sempre foi assim. Sinal dos tempos, de uma crise anunciada: esta semana, os estados de São Paulo e Rio de Janeiro entraram em conflito pelo abastecimento de água. A falta de água e sua perda de qualidade são uma crise anunciada “para o futuro” que já está batendo na porta.

Vai faltar água para a região metropolitana de São Paulo e o plano emergencial é o bombeamento a partir do rio Paraíba do Sul. Acontece que esse rio passa por uma vasta extensão do estado do Rio de Janeiro e dele dependem 11 milhões de habitantes de lá, que seriam afetados pelo bombeamento para a capital paulista. Já o governador de São Paulo foi ao governo federal em busca de solução, pois diz que sem o bombeamento haverá racionamento de água na região metropolitana.

Os bairros de periferia costumam ser vítimas da negligência na manutenção de suas redes de distribuição a ponto de faltar água em suas regiões. Revoltantes negligências, mas que podem ser sanadas por obras das prefeituras. Já a crise de abastecimento, a falta de água para as regiões metropolitanas, não tem soluções fáceis nem locais – está aí o conflito de São Paulo e Rio de Janeiro por um rio, análogo ao de regiões desérticas onde já há guerras pelos reservatórios naturais de água.

País rico em recursos naturais, com 11% da água doce de todo o planeta, é um absurdo total a crise de abastecimento das cidades, prova maior de nossa ignorância com o que nos é mais essencial. O Brasil é um paraíso hídrico totalmente negligente com seu patrimônio ambiental, que está degradando rapidamente – tanto os recursos hídricos quanto os florestais, pois somos o país campeão mundial de desmatamento e não falamos disso, como se o mais importante fosse o mundial de futebol.

Metade dos brasileiros ainda não tem esgoto tratado. Empresas poluem rios das regiões metropolitanas, sem tratamento adequado dos resíduos e sem fiscalização eficiente dos órgãos públicos. Governos e iniciativa privada são parceiros nessa negligência para a qual a sociedade ainda não acordou. A grande ausente nas manifestações de junho de 2013 – onde se gritou sobre a importância da saúde, educação e mobilidade – foi a consciência ambiental.

É um problema mundial, não só nosso, é claro. A ONU estima que mais da metade dos rios do mundo está poluída pelos despejos dos esgotos domésticos, efluentes industriais e agrotóxicos. No Terceiro Mundo, nove em cada dez litros de esgoto são lançados nos rios sem tratamento. Mas a Europa também vive no limite dos seus recursos naturais, que historicamente degradou bem antes da nossa era de consciência científica ecológica.

Poucos sabem que o conceito de “Desenvolvimento Sustentável” não foi obra de ambientalistas mas sim de uma comissão de assuntos econômicos da ONU, na década de 70, quando os europeus identificaram que o grande gargalo para o desenvolvimento econômico era o esgotamento dos recursos naturais.

A grande questão é que não existem soluções imediatistas para problemas que requerem planejamento, prevenção e preservação. Não há como restituir rios às suas condições originais, nem abastecer metrópoles da noite para o dia. Quer dizer, vai faltar água e vai piorar a qualidade, até faltar. E quando formos protestar será tarde, porque as medidas a tomar levam décadas para surtir efeito. Ao contrário do que estamos fazendo, não falar no assunto não resolve o problema, só adia as soluções.

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.

Fonte: EcoDebate